terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Nem paz, nem guerra.

Não queiras viver no meu Mundo, conhecer ou fazer parte do meu povo. Porque aqui a liberdade não existe, há muito que se desvaneceu, num sopro transformou-se em cinzas. Somos comandados por fantasmas que nos possuem a alma, reinam sem piedade, num regime baseado no medo. Vivemos numa prisão, com grades feitas de censura e espinhos de preconceito. É estritamente proibidos qualquer tipo de vontade própria, ou qualquer manifestação de sentimentos, caso contrario somos severamente julgados. O chão é irregular, temos de andar com muita cautela, de olhos postos no chão, portanto é impossível olhar para o céu, sentir o calor do sol na cara, admirar as estrelas, adormecer á luz das constelações, e além disso, se olharmos ao nosso redor, vemos inúmeros olhares, estranhos para nós, mas transbordantes de ódio, vale mais olhar o chão, ter a certeza de que não caímos em algum buraco. E se viveres aqui, podes-te habituar a ter constantemente um aperto no coração, um nó na garganta, uma brisa gélida no pescoço, e um suspiro no ouvido, em tom de morte.

Mas ainda assim, dentro de nós existe uma forte vontade, de mudar, explodir, de gerar um motim, exigir a nossa liberdade, podermos ser quem queremos ser, sem barreiras, ou regras. dentro de nós houve e sempre haverá o desejo de partir para guerra, mas algo nos impede (talvez seja o medo), e insiste que continuemos assim, não em paz, nem em guerra.Um desejo que vive e que se mantém calado, trancado no nosso olhar, escasso de esperança.

Mas no fundo, não será que vivemos todos no mesmo Mundo?

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Grito silencioso.

Cerro os punhos,e inspiro, para voltar a esmurrar a porta com todas as forças que ainda me restam, num grito, em alto e bom som, arranhei violentamente a minha garganta, tornando a minha voz rouca, e partindo para soluços, agora que o ar me faltava, já não sentia mais as mãos, e o meu corpo tornava-se paralisado e dormente. Cai no chão, num choro inconsulável, implorando por ti.

A verdade está mesmo em frente dos teus olhos, eu estou aqui, apenas do outro lado da porta, a desesperar que me oiças.

sábado, 18 de dezembro de 2010

Frágil como a vida.

Olá estranho, posso pedir-te uma coisa?

Não vivas, nem tentes desvendar o Mundo, julgando ser o detentor do conhecimento e da razão. Não andes por ai certo de saber exactamente por onde os ventos mais fortes passam, ou onde a nuvens pairam e onde ou quando a chuva cai. Não estejas tão certo que sabes algo, nem alguém. Não sejas tão confiante em relação á vida, pois entre ela e o seu fim, tens uma película muito fina e frágil. E não me julgues, nem me deites abaixo, tentando dizer que estou a seguir o caminho errado, pensando que me conheces, pois podes não estar assim tão certo. Não tentes desvendar o Mundo, quando ele é um constante mistério, cuja resposta se distancia, á medida que a tentas alcançar.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Heitor.

Durante uma batalha, no momento em que te encontras frente a frente com o inimigo, e tens de escolher entre lutar e declarar tréguas, não há nada mais fácil que desistir, largar as armas, e deixa-las cair pesadamente no chão.
Mas o olhar em frente, e enfrentar os obstáculos, no momento em que toda a gente compreendia que desistisses, mostra o verdadeiro guerreiro que há em ti.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Carrossel.

Neste carrossel da vida, só nos resta agarrar-nos bem e aproveitar a viagem.


terça-feira, 30 de novembro de 2010

Asas.

Não me dês a verdade.
Não me dês a realidade, nem o tempo.

Dá me asas, sonhos e fantasia.
Cega-me, e dá-me outro mundo, outra dimensão.
Diz-me coisas mágicas, mesmo que sejam mentira.

Não me digas o que vai na tua mente.
Não me contes os segredos que os ventos carregam.

Apenas canta-me belas melodias.
Deixa a brisa levar-me onde a tua voz me conduz.



segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Pétala por pétala.

Sentei-me num banco de pedra, tão frio e rígido, como o meu coração, como o meu rosto, que sem expressão, procurava no inquietante movimento da população que passava, um sinal dos teus passos, o som único dos teus sapatos contra a calçada.Uma rosa jazia ao meu lado, perdida entre as folhas e a relva, e podia ouvir um grito de aflição, escapando pelas sua pétalas aveludadas, de um vermelho escuro, algumas já mortas. Estendi a minha mão para a alcançar e peguei nela.Lentamente, despi-a, pétala por pétala, pousando cada uma no meu vestido, até restar apenas um caule, com espinhos, nada mais. Recolhi as pétalas fazendo uma concha com as palmas das mãos, e fechando os olhos, inalei o seu aroma. Por segundos, podia jurar que estavas ali, senti na perfeição toda a tua essência, o teu perfume.Levantei-me e lancei todas as pétalas ao ar, antes de me ir embora, permaneci uns segundos imóvel, vendo cada um dos pedaços de ti movendo-se ao som do vento, até alcançar e cair suavemente no chão.

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Bom dia.


Coberta até aos ombros, por lençóis brancos bordados com motivos florais, dormia ela, no seu mundo de fantasia e promessas. Os seus olhos grandes e redondos, de um castanho avelã viram pela primeira vez o Sol daquela manhã, abrindo delicadamente os braços e sorrindo, espreguiçou-se e graciosamente levantou o seu corpo,  levanto-se da cama. Com passos ritmados, de uma melodia que tinha formado na sua cabeça, caminhou até á janela, bailando, fazendo o seu vestido longo e rodado, bailar numa perfeita sintonia com as suas pernas. Rodopiou uma vez, e abriu as cortinas. Cumprimentou o dia, o Sol, e principalmente a leve chuva que preparara um bailado no seu jardim, algumas gotas alcançavam ainda o vidro, produzindo um som que encaixava perfeitamente na musica que ela insistia em compor na sua mente. Abriu as portas, e convidou o vento para entrar, deixando as suas cortinas dançar, em movimentos irregulares. Sentou-se em frente ao seu tocador, e escovou o seu longo e escuro cabelo, enquanto via o seu reflexo num espelho, emoldurado por uma composição de folhas de acanto em prata branca. Passou o pente dourado uma ultima vez pelas ondas do seu cabelo, e levantou-se, saindo agora pela porta, participando assim, na festa que sucedia lá fora, no seu jardim.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

malmequer.


Olá. -digo eu. Sorriu e deixo os meus olhos percorrerem os traços do teu rosto.
Ainda me lembro, do teu sorriso, tão genuíno, tão puro, quando te via ainda ao longe, conseguia de imediato imaginar um sorriso desenhado nos teus lábios, e da maneira que me arrancavas um sorriso, mesmo quando não queria. E agora que os meus olhos se fixaram nos teus, lembro-me até da exacta expressão que os teus olhos carregavam, quando a tristeza assaltava o teu coração, ou da maneira que eles liam o meu rosto, e na perfeição, conseguiam decifrar a minha mente, e os meus pensamentos. Quando as memórias me invadiram, fechei os olhos, e consegui sentir uma lágrima a percorrer-me o rosto, fazendo o seu caminho até que a tua mão travou o seu percurso, passando suavemente no meu rosto, e senti as minhas mãos serem abrigadas pelas tuas, provocando um leve arrepio no meu corpo, e um sopro quente no coração. Quantas vezes nas alturas em que tinha como única companhia a minha própria solidão, pedia pelo calor do teu abraço, pelo conforto das tuas palavras. E quando os raios do Sol de Inverno abrandaram as gotas de chuva, um arco-íris invadiu os céus. Nos meus pés conseguia ainda sentir a relva molhada, e nos meus cabelos sentia ainda a brisa de Verão, o cheiro a malmequer estava ainda fresco, e por segundos sentia o meu corpo leve, tal como quando nos deitávamos na relva a olhar o céu, e os nossos dedos encaixavam na perfeição, as horas podiam passar, mas jurávamos que podíamos ficar ali uma eternidade, até que o Sol se punha e o fresco da noite aproximava os nossos corpos num abraço.Agora que o tempo e o Mundo nos separou, nada restam senão memórias, sensações, turbilhões de imagens, sempre que os meus olhos se fecham.

Mas aqui estás tu, que por momentos podia jurar até que eras um estranho. Realmente é como dizem, nada é para sempre, tudo tem um fim.

Meu doce pecado.

Quantas vezes nos alertaram, nos afastaram deste rumo? Mas como sempre, fomos atraidos pelo doce aroma das trevas, pelo desejo incessante do fruto proibido, pela falsa luz que ofuscara a nossa alma, e nos induzira a falsas expectativas, como sempre, o nosso coração, faminto por esperança, foi atraido pelo deslumbrante e inquietante bailar dos véus que nos escondem um abismo, transbordante em chamas. Meu doce pecado. O que mais queremos, é o que pior nos faz.