Sentei-me num banco de pedra, tão frio e rígido, como o meu coração, como o meu rosto, que sem expressão, procurava no inquietante movimento da população que passava, um sinal dos teus passos, o som único dos teus sapatos contra a calçada.Uma rosa jazia ao meu lado, perdida entre as folhas e a relva, e podia ouvir um grito de aflição, escapando pelas sua pétalas aveludadas, de um vermelho escuro, algumas já mortas. Estendi a minha mão para a alcançar e peguei nela.Lentamente, despi-a, pétala por pétala, pousando cada uma no meu vestido, até restar apenas um caule, com espinhos, nada mais. Recolhi as pétalas fazendo uma concha com as palmas das mãos, e fechando os olhos, inalei o seu aroma. Por segundos, podia jurar que estavas ali, senti na perfeição toda a tua essência, o teu perfume.Levantei-me e lancei todas as pétalas ao ar, antes de me ir embora, permaneci uns segundos imóvel, vendo cada um dos pedaços de ti movendo-se ao som do vento, até alcançar e cair suavemente no chão.
Coberta até aos ombros, por lençóis brancos bordados com motivos florais, dormia ela, no seu mundo de fantasia e promessas. Os seus olhos grandes e redondos, de um castanho avelã viram pela primeira vez o Sol daquela manhã, abrindo delicadamente os braços e sorrindo, espreguiçou-se e graciosamente levantou o seu corpo, levanto-se da cama. Com passos ritmados, de uma melodia que tinha formado na sua cabeça, caminhou até á janela, bailando, fazendo o seu vestido longo e rodado, bailar numa perfeita sintonia com as suas pernas. Rodopiou uma vez, e abriu as cortinas. Cumprimentou o dia, o Sol, e principalmente a leve chuva que preparara um bailado no seu jardim, algumas gotas alcançavam ainda o vidro, produzindo um som que encaixava perfeitamente na musica que ela insistia em compor na sua mente. Abriu as portas, e convidou o vento para entrar, deixando as suas cortinas dançar, em movimentos irregulares. Sentou-se em frente ao seu tocador, e escovou o seu longo e escuro cabelo, enquanto via o seu reflexo num espelho, emoldurado por uma composição de folhas de acanto em prata branca. Passou o pente dourado uma ultima vez pelas ondas do seu cabelo, e levantou-se, saindo agora pela porta, participando assim, na festa que sucedia lá fora, no seu jardim.
Olá. -digo eu. Sorriu e deixo os meus olhos percorrerem os traços do teu rosto.
Ainda me lembro, do teu sorriso, tão genuíno, tão puro, quando te via ainda ao longe, conseguia de imediato imaginar um sorriso desenhado nos teus lábios, e da maneira que me arrancavas um sorriso, mesmo quando não queria. E agora que os meus olhos se fixaram nos teus, lembro-me até da exacta expressão que os teus olhos carregavam, quando a tristeza assaltava o teu coração, ou da maneira que eles liam o meu rosto, e na perfeição, conseguiam decifrar a minha mente, e os meus pensamentos. Quando as memórias me invadiram, fechei os olhos, e consegui sentir uma lágrima a percorrer-me o rosto, fazendo o seu caminho até que a tua mão travou o seu percurso, passando suavemente no meu rosto, e senti as minhas mãos serem abrigadas pelas tuas, provocando um leve arrepio no meu corpo, e um sopro quente no coração. Quantas vezes nas alturas em que tinha como única companhia a minha própria solidão, pedia pelo calor do teu abraço, pelo conforto das tuas palavras. E quando os raios do Sol de Inverno abrandaram as gotas de chuva, um arco-íris invadiu os céus. Nos meus pés conseguia ainda sentir a relva molhada, e nos meus cabelos sentia ainda a brisa de Verão, o cheiro a malmequer estava ainda fresco, e por segundos sentia o meu corpo leve, tal como quando nos deitávamos na relva a olhar o céu, e os nossos dedos encaixavam na perfeição, as horas podiam passar, mas jurávamos que podíamos ficar ali uma eternidade, até que o Sol se punha e o fresco da noite aproximava os nossos corpos num abraço.Agora que o tempo e o Mundo nos separou, nada restam senão memórias, sensações, turbilhões de imagens, sempre que os meus olhos se fecham.
Mas aqui estás tu, que por momentos podia jurar até que eras um estranho. Realmente é como dizem, nada é para sempre, tudo tem um fim.
Quantas vezes nos alertaram, nos afastaram deste rumo? Mas como sempre, fomos atraidos pelo doce aroma das trevas, pelo desejo incessante do fruto proibido, pela falsa luz que ofuscara a nossa alma, e nos induzira a falsas expectativas, como sempre, o nosso coração, faminto por esperança, foi atraido pelo deslumbrante e inquietante bailar dos véus que nos escondem um abismo, transbordante em chamas. Meu doce pecado. O que mais queremos, é o que pior nos faz.